O gênio da liderança; Paixão por Vencer

EXAME leu em primeira mão no Brasil o novo livro do executivo mais famoso do mundo, Jack Welch. Mostramos aqui as razões do sucesso que ele teve e ainda tem…

Por Nelson Blecher e Angela Pimenta, de Nova York

Aos 69 anos, fora da presidência da General Electric desde 2001, John Francis Welch Jr. segue sendo Jack Welch – o superexecutivo que todos querem ter por perto. Numa recente sondagem feita pelo jornal inglês Financial Times sobre com quem os acionistas gostariam de contar no conselho de suas empresas, Welch despontou em primeiro lugar. Republicano de carteirinha, chegou a ser sondado para um ministério no segundo governo de George W. Bush. Recusou de pronto – diz não ter a menor paciência para o mundo da política. No ano passado, foi a vez de a Coca-Cola aproximar-se – mas em hipótese nenhuma ele cogita voltar a ser um CEO.Welch mantém uma consultoria, a Jack Welch LLC, que assessora presidentes de grandes empresas. Ele também roda o mundo dando palestras com preços que oscilam de 150 000 a 400 000 dólares. Já falou para mais de 300 000 executivos de empresas e governos em lugares tão diversos quanto a China e os Emirados Árabes. Seu segundo livro, Winning, vem provocando sensação nos Estados Unidos. (No Brasil, a obra, editada pela Campus/Elsevier, foi batizada de Paixão por Vencer. Será lançada no início de maio ao preço de 69 reais.) Para promover a venda dos 750 000 exemplares da primeira edição, escrita em parceria com a jornalista Suzy Welch, sua terceira mulher, o casal percorre 13 cidades em turnê – entre elas Boston, Filadélfia, Chicago e Pasadena. Entre uma sessão de autógrafos e outra, os dois aparecem nos talk shows de maior audiência da TV americana. O lançamento em Nova York atraiu para os salões do badalado hotel Four Seasons celebridades da política e dos negócios, como Henry Kissinger, Ron Perelman, dono da Revlon, e Rudolph Murdoch, um dos barões mundiais da mídia. Esfuziante num terninho Armani, Suzy Welch ostentava no dedo um anel solitário de 9 quilates — presente de noivado. Na terça-feira 12 de abril, convidado a apresentar seu novo livro aos estudantes da Sloan, a escola de negócios do MIT, em Massachusetts, Welch foi ovacionado como poucas vezes se viu no auditório daquela que é uma das mais renomadas instituições de ensino dos Estados Unidos.

Por que todos continuam a ouvir o que Jack Welch tem a dizer? Por que seus livros instantaneamente se transformam em best-sellers? A razão é que não há hoje no planeta alguém com tamanha autoridade para falar sobre sucesso no mun do dos negócios quanto o ex-presidente da GE. Diferentemente da maioria dos acadêmicos e consultores, Welch tem a seu favor um histórico de 21 anos de excepcionais realizações. Um currículo que lhe valeu o título de executivo do século 20, conferido pela revista Fortune na virada do milênio. Welch fala com a autoridade de quem fez. O grupo que comandou é um dos maiores conglomerados do mundo. Suas 11 unidades de negócios, espalhadas por mais de uma centena de países e que empregam cerca de 300 000 funcionários, produzem de turbinas aéreas a lâmpadas domésticas, de equipamentos hospitalares a fogões e sistemas de energia. A GE também é dona da rede de TV NBC, de uma financeira e de uma seguradora.

Durante a gestão de Welch, os lucros passaram de 1,6 bilhão para 12,7 bilhões de dólares anuais. O valor de mercado foi multiplicado por 40 e chegou a 500 bilhões de dólares. Além de ser um administrador muito acima da média, ele conseguiu fazer o que poucos em sua posição conseguem — formou não um, mas uma dúzia de possíveis sucessores. “Jack será lembrado como o líder cujo foco foi desenvolver outros líderes — essa sempre foi sua prioridade”, disse a EXAME Noel Tichy, professor da Universidade de Michigan. Jeffrey Immelt, atual presidente da GE; Bob Nardelli, da Home Depot; Jim McNerney, da 3M; David Cote, da Honeywell, estão entre seus descendentes diretos.

Formado em engenharia química, é filho único de um casal de origem irlandesa. Boa parte de seu estilo de gestão tem origem nos ensinamentos da mãe, Grace, segundo diz Welch, numa homenagem exagerada, mas simpática, a Grace. “Ela foi a maior influência em minha vida”, afirma. “Se desenvolvi algum estilo de liderança, algum meio de extrair o melhor das pessoas, devo tudo a ela.” Foi Grace quem lhe reforçou a auto-estima, ao explicar a gagueira infantil, depois superada, como resultado de uma inteligência veloz. Sua enorme disciplina para monitorar e avaliar os resultados de seus subordinados — exercitada até hoje com os empregados de sua mansão do século 19, alugada em Boston — é fruto da marcação cerrada da mãe em relação às tarefas escolares. Enfrentar a realidade por mais difícil que ela pareça, motivar pessoas e fixar metas desafiantes — todos esses ensinamentos explorados em seu novo livro foram absorvidos pelo hipercompetitivo Welch desde tenra idade. Certa vez, de pois que seu time de hóquei no colégio perdeu uma partida decisiva, ele atirou o bastão no gelo. Grace foi ao vestiário para lhe aplicar um puxão de orelha: “Seu paspalho, se não souber perder, nunca saberá ganhar”. Segundo afirma, o episódio foi humilhante, mas ele jamais esqueceu as palavras. Daí o respeito que devota aos executivos que, antes de ser bem-sucedidos, já sofreram derrotas fragorosas. Sua gestão à frente da GE foi pautada sobretudo pelo bom senso. “Escolhemos uma das profissões mais simples do mundo”, costuma dizer Welch.

As 360 páginas do livro estão recheadas de lições de bom senso para gente que faz negócios — qualquer tipo de profissional, não importando o tamanho da empresa em que atue. É quase uma obra de auto-ajuda para executivos. São essas características que fazem crer que Paixão por Vencer terá mais sucesso que o primeiro livro de Welch, Jack Definitivo, lançado em 2001. Na época, foram vendidos 2,7 milhões de exemplares em todo o mundo. Welch ganhou 7 milhões de dólares adiantados. Mas seu estilo não entusiasmou. Desta vez, entretanto, conta com uma poderosa aliada — Suzy, sua terceira mulher, ex-editora-chefe da prestigiada Harvard Business Review, bonita e 24 anos mais jovem que ele. Os dois se conheceram no final de 2001, durante uma entrevista. Na época, Welch era casado com Jane Beasley. O romance foi descoberto com a leitura de um e-mail e logo vazou, transformando-se em escândalo. Na Harvard, a responsabilidade sobre o artigo foi retirada das mãos de Suzy e passada a dois editores homens. Acusada de deslize ético, ela foi obrigada a renunciar a seu posto na revista. Welch separou-se, deixando para trás uma ex-mulher magoada e — ele veria logo — vingativa. Jane tornou público o pacote de aposentadoria de Welch, no valor de 125 milhões de dólares, recheado de mordomias. Suas despesas pessoais continuariam a ser cobertas pela GE. Ele teria direito a um apartamento com vista para o Central Park, em Nova York, a usar o jatinho da empresa, a flores, bebidas, jantares em restaurantes cinco-estrelas e até a ingressos para partidas de beisebol. Os acionistas da GE receberam mal a notícia. A SEC, órgão que regula as empresas cotadas em bolsa nos Estados Unidos, decidiu abrir uma investigação sobre o caso. Mas Welch se antecipou, renunciando aos benefícios e reembolsando a corporação por todas as despesas feitas depois de sua apo sentadoria. Para encerrar o casamento e as brigas, estima-se que tenha deixado 130 milhões de dólares para a ex-mulher.

Isso fez de Jack Welch um homem um pouco menos rico — nada que comprometa o futuro das próximas gerações da família. Sua fortuna, amealhada por meio de salários, bônus em dinheiro e opções de ações da GE, tem sido estimada entre 450 milhões e 900 milhões de dólares. Hoje seus grandes luxos são restaurantes finos, viagens e compras de quadros. Ele já tem quatro filhos e nove netos. Mas, nos últimos tempos, tem pensado em ampliar sua prole, tendo um bebê com Suzy. A nova criança seria uma espécie de redenção para Welch, um pai reconhecidamente ausente, que sempre colocou o trabalho à frente da família. “Por 41 anos meu princípio operacional foi trabalhe duro, jogue duro e passe algum tempo como pai”, diz ele em seu livro. “Se hoje meus filhos são felizes, eles devem isso muito mais à mãe do que a mim.” Welch se arrepende? Parece que não. Para ele, o tão sonhado equilíbrio trabalho-vida pessoal é uma quimera. Cada qual faz suas escolhas e deve se responsabilizar por elas.

É claro que Jack Welch não seria Jack Welch se não tivesse uma plataforma tão poderosa como a GE. Ele pertence a uma estirpe de executivos que celebrizaram a General Electric como a única corporação americana que, por mais de um século, conseguiu manter excelência na liderança. Cada um dos CEOs que lhe antecederam deixou sua marca na passagem pela companhia, fundada por Thomas Alva Edison, inventor da lâmpada e do gramofone. Mas nenhum deles foi tão dissecado, galvanizou tanto as atenções da mídia e teve suas idéias tão amplamente divulgadas e copiadas por outras empresas como Welch. Se a transformação radical de valores e atitudes que empreendeu ficasse circunscrita aos muros da GE, já seria um feito. Mas ele fez muito mais: suas idéias migraram para centenas de companhias em todo o mundo. “Ninguém influenciou tanto o mundo empresarial com seus conceitos de gestão como Welch”, afirma o empresário gaúcho Jorge Gerdau Johannpeter, um fã assumido do executivo americano. Welch sempre se considerou, em primeiro lugar, um catequizador. “Ensinar é a maneira como ganho a vida”, costumava dizer aos executivos, acrescentando que não sabia fazer geladeiras nem turbinas de avião. Em sua batalha contra a burocracia enquistada por décadas na GE, transformou o centro de Crotonville, às margens do rio Hudson, numa espécie de Harvard empresarial, forjada para formar uma nova geração de executivos comprometidos com os novos valores de flexibilidade, meritocracia, eficácia e simplicidade. Foi nesse laboratório que mudou paradigmas como nenhum outro guru ou acadêmico. Tome-se como exemplo seu lema predileto — “gerenciar menos é gerenciar melhor” –, coerente com a necessidade de delegar e agir velozmente, a cada dia mais premente nos negócios. Pela primeira vez, um líder empresarial passava a valorizar abertamente a importância dos erros. Certa vez, mandou premiar com aparelhos de TV os membros de uma equipe responsável pelo desenvolvimento de uma nova lâmpada… que não funcionava. A mensagem era clara: errem, mas façam e, por favor, não repitam o erro da próxima vez. “Sua gestão na GE será estudada em escolas de administração pelo menos nos próximos 50 anos”, afirma o especialista americano Warren Bennis, um dos mais respeitados estudiosos de liderança. Há mais de 150 definições de liderança nos manuais de administração. A mais singela é a de Jack Welch: “Ser líder é ajudar outras pessoas a crescer e a alcançar o sucesso”. É exatamente o que ele pretende com seu novo livro. Coisa de gênio.

Fonte: Revista Exame

Data da publicação no Web site da CompanyWeb 20/06/2005

Original : http://www.companyweb.com.br

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Sobre Wagner Bueno

Administrador, Consultor e Professor
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