Empresas que não se concentram no lucro são as mais lucrativas

Entrevista: Para Arie de Geus, conservadorismo financeiro é a marca das companhias mais longevas

Fonte : http://www.riobravo.com.br

Valor Econômico – 07/11/2008

Adriana Wilner

Empresas  com vida longa e próspera não têm, como objetivo primordial, ganhar  dinheiro. Com essa filosofia, entretanto, acabam sendo muito mais  lucrativas do que a média das corporações. Nesta entrevista ao Valor, o  consultor holandês Arie De Geus explica o aparente paradoxo. De Geus,  convidado do Valor para falar no Seminário Empresas de Vida Longa,  realizado em parceria com o Banco do Brasil, quarta-feira em São Paulo, é  autor do best-seller A Empresa Viva: como as organizações podem  aprender a prosperar e se perpetuar (Editora Campus, 240 páginas),  lançado em 1997. A Empresa Viva foi traduzido para mais de 20 línguas e  recebeu uma série de prêmios, entre eles, o de melhor livro do ano pelo  jornal britânico Financial Times e o de mais inovador pelo The Edwin G.  Booz Prize, da consultoria Booz-Allen & Hamilton.

Arie De  Geus tem uma visão profunda sobre o universo corporativo. Ele passou 38  anos em três continentes trabalhando para a multinacional Shell e  terminou sua carreira corporativa como diretor de planejamento  corporativo, com a responsabilidade de planejar cenários. Foi,  inclusive, presidente da Shell no Brasil, na década de 70, período em  que morou no Rio de Janeiro e durante o qual aprendeu a falar português.  De Geus vive em Londres, onde é professor visitante da London Business  School, e deu esta entrevista alguns dias antes de viajar para São  Paulo.

Nela, ele afirma que é preciso uma enorme sensibilidade  ao ambiente externo para identificar, antes dos competidores, quando é  hora de promover mudanças estruturais na companhia. Essas mudanças são  muito difíceis de fazer, segundo ele. É preciso questionar internamente:  como iremos nos adaptar? Quais os aspectos em que precisamos mudar? E é  preciso tomar essas medidas um pouco antes dos demais.

Nesta  crise, afirma o consultor, algumas empresas longevas vão morrer porque  não perceberam o que estava acontecendo ou estavam muito felizes com os  resultados imediatos. O interessante é que, nas empresas em que havia  mais proteção e menos pressão, os estragos são consideravelmente  menores.

Valor: A grave proporção da crise financeira mundial mudou sua forma de pensar a respeito da longevidade das empresas?

Arie  De Geus: A minha forma de pensar não mudou. Se você pensar em empresas  como o Banco do Brasil, que está completando 200 anos, ele já passou por  uma crise colonial, por guerras napoleônicas, pela independência do  Brasil, pela abolição da escravatura, por duas guerras mundiais. Uma  empresa de 200 anos já viveu muitas crises, algumas provavelmente muito  mais severas do que esta pela qual estamos passando agora. E o que é  notável sobre as empresas longevas é que, mesmo afetadas pelas crises,  elas conseguem sobreviver.

Valor: Qual o segredo de sobrevivência dessas empresas às crises?

De  Geus: Nós fizemos um estudo na Shell no final dos anos 80, quando eu  era coordenador de estratégia de planejamento do grupo, com empresas  bem-sucedidas e longevas. Queríamos saber que companhias poderiam nos  inspirar. Estudamos 27 empresas e ficamos surpresos ao perceber que  todas elas tinham quatro características em comum. A primeira é que,  normalmente, são conservadoras financeiramente.

Valor: Boa parte das empresas, no entanto, parece ter perdido essa sobriedade financeira hoje em dia.

De  Geus: Mesmo assim, se você olhar as empresas e os bancos que foram um  pouco mais conservadores nesta crise, eles estão se saindo melhor. Nos  Estados Unidos, podemos citar, por exemplo, o Bank of America. Na  Inglaterra, o Lloyds. Alguns vão sucumbir, principalmente os que se  arriscaram mais do que deveriam. O Barings era o mais antigo banco  inglês de investimentos, foi fundado no século XVIII e morreu por causa  de uma aventura, por problemas internos de controle. Isso pode acontecer  com empresas longevas.

Valor: Que outras características são comuns às empresas de vida longa?

De  Geus: A segunda característica é que elas são sensíveis ao mundo em que  vivem. Um bom exemplo é a família Du Pont, nos Estados Unidos. Os  membros da família sempre foram senadores ou participaram de alguma  forma da vida política. Como líderes do seu país, ocuparam um papel no  mundo mais abrangente. Quem toma uma posição como a da família Du Pont  fica a par do que acontece no mundo e pode questionar: se isso está  acontecendo, qual o impacto para a minha empresa? Se você é somente o  líder de uma empresa, está normalmente orientado para dentro, olhando  para questões como os indicadores de eficiência, e acaba deixando muitas  vezes de lado o que acontece no mundo lá fora.

Valor: Como as companhias podem construir uma maior sensibilidade ao ambiente externo e seus impactos?

De  Geus: Não tenho certeza de que as empresas são capazes de construir  esta sensibilidade. Na maioria dos casos, são empresas familiares e isso  normalmente é incutido nas empresas pelos seus fundadores. Esses  fundadores conseguem selecionar na diretoria pessoas com essa  sensibilidade e que irão sucedê-los. É até possível aprimorar  internamente essa percepção ao mundo externo, com uma metodologia de  previsão de cenários. Isso aumenta a sensibilidade ao meio ambiente, mas  não acredito que seja possível construir do zero essa capacidade.

Valor: Na crise pela qual estamos passando, essa sensibilidade ajuda de que forma?

De  Geus: Uma crise normalmente acontece porque algo mais amplo no mundo  muda e as empresas têm que fazer mudanças estruturais internas. E essas  mudanças estruturais são muito difíceis de fazer. Você tem que estar  ciente, um pouco antes do que os competidores, das mudanças no ambiente  externo, e fazer as mudanças estruturais necessárias. Para isso, é  preciso sensibilidade. É preciso questionar internamente: como iremos  nos adaptar? Quais os aspectos em que precisamos mudar? E é preciso  tomar essas medidas um pouco antes dos demais.

Valor: O que mais o senhor descobriu na sua pesquisa sobre empresas longevas?

De  Geus: Além do conservadorismo financeiro e sensibilidade ao mundo  externo, as empresas longevas contam com mais duas características  comuns. Elas têm um forte senso de identidade, as pessoas que ali  trabalham sabem qual o propósito da empresa e os valores aos quais a  empresa está associada. E, por fim, essas empresas são razoavelmente  descentralizadas na sua gestão. Isso significa que elas preferem deixar  com que as coisas aconteçam na margem. Encontramos essas quatro  características e, nas minhas conversas pelo mundo afora com diversas  empresas, sempre vem a seguinte reação: É exatamente como nós somos.

Valor: As empresas parecem ter uma vida cada vez mais curta. Por que isso acontece?

De  Geus: Essa é uma questão diferente. Não se trata de analisar por que  certas empresas sobrevivem mais. Há companhias com 200, 300 anos, e, no  caso da escandinava Stora Enso, 700 anos. Mas a expectativa de vida das  empresas é muito baixa e vem se reduzindo ainda mais. Quando olhamos  para este indicador pela primeira vez, nos anos 80, descobrimos que a  expectativa de vida das empresas na Europa, Estados Unidos e Japão era  de 17 anos. E a última vez que olhamos o indicador, no final dos anos  90, 12 anos depois, essa expectativa de vida tinha caído para 12 anos e  meio. E parece que está se reduzindo ainda mais no momento. É  impressionante. As companhias vivem cada vez menos e isso tem a ver com a  excessiva ênfase nos resultados de curto prazo e na criação de valor ao  acionista. Isso coloca pressão exacerbada nas lideranças e nos  empregados.

Valor: Como as empresas podem evitar essa pressão por resultados de curto prazo?

De  Geus: Se quiserem evitar essa pressão, elas têm que avaliar  criteriosamente a estrutura legal. Muitas empresas modernas, como  consultorias, são empresas de participação (partnerships). Elas não têm  ações negociadas na bolsa de valores. Não precisam pensar apenas nos  dividendos do próximo trimestre. Na Europa, há grandes cooperativas que  também não têm ações no mercado. No setor bancário inglês, existiam  fortes empresas de poupança e crédito imobiliário organizadas como  cooperativas. Elas pertenciam aos seus membros e trabalhavam para os  seus membros. Há dez anos, essas empresas se tornaram sociedades  anônimas e venderam ações no mercado. E aí veio a pressão dos acionistas  por resultados de curto prazo. E todas essas empresas morreram. Ao  mudar a estrutura na direção errada, de uma sociedade por cotas para uma  sociedade aberta, acabaram sucumbindo. E algumas empresas que  mantiveram as características antigas foram as que sobreviveram.

Valor: Então, não há muito o que fazer para fugir dessa pressão no caso das empresas que são negociadas na bolsa? De Geus: Se a empresa tiver ações no mercado, precisa criar algum tipo  de estrutura legal que a proteja. As pessoas que tomam as decisões devem  ser pessoas que trabalham na empresa e que se preocupam com o futuro e  não apenas com os resultados imediatos.

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Sobre Wagner Bueno

Administrador, Consultor e Professor
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