O pedreiro que contratou o executivo aos Alicerces abalados na construtora…

Recebi um comentário da leitora Natália Loureiro e agradeço pelas informações. Abaixo o comentário e também a saga dos dois momentos da Empresa BS.

Vocês encontrarão os dois momentos nesta reportagem:

  • FASE 1 : Reportagem EXAME o pedreiro que contratou o executivo
  • FASE 2 :  Alicerces abalados na construtora

“Professor, essa matéria é antiga. Em fevereiro de 2012, data desse post, o Marcelo já havia saído da BS há mais de quatro meses e a empresa estava quebrada. Somente a título de conhecimento, essa história foi um fracasso.”

2° FASE – Alicerces abalados na construtora

BS Construtora tem pedido de recuperação judicial deferido

Da Redação – RD

Foto: Da Assessoria

BS Construtora tem pedido de recuperação judicial deferido

O juiz Wanderlei José dos Reis, de Sorriso, deferiu em novembro o processo de recuperação judicial da empresa BS Construtora, que atua em projetos corporativos, incorporações e obras de programas habitacionais. Com passivo de aproximadamente R$ 95 milhões, a empresa conta hoje com duas fábricas próprias e gera diversos empregos diretos e indiretos, distribuídos entre a sede e suas filiais em Brasília (DF), Porto Velho (RO), Rio Branco (AC) e Sorriso (MT).

A Construtora, especializada na fabricação de casas pré-moldadas, possui dívidas de R$ 730 mil com credores trabalhistas, de R$ 39 milhões com credores quirografários (sem garantia real) e de R$ 33 milhões com credores com garantia real.

De acordo com advogado da empresa e especialista em recuperação judicial, Eduardo Henrique Vieira Barros, da ERS Advocacia, a construtora enfrentou problemas no cumprimento de seu principal projeto, a construção do Polo Industrial de Jirau, e teve que tomar empréstimos em instituições financeiras para obter capital de giro. “Além disso, alguns empreendimentos da incorporação imobiliária no norte do país se tornaram inviáveis, causando graves prejuízos principalmente por conta da crise do ano de 2008, que arrasou a economia em todos os setores do mundo”, pontuou.

Eduardo Henrique explicou que, em 2010 – com a necessidade de captação de recursos para finalização de obras e pagamentos de folha de salário – a construtora contratou uma operaçõa de R$50 milhões com uma instituição financeira. Porém, ela não se concretizou completamente, o que resultou em total ausência de caixa na empresa.

“A partir daí a BS entrou num círculo vicioso de empréstimos aos bancos privados, os quais – como é sabido por todos – praticam uma das maiores taxas de juros do cenário mundial, para cobrir outros financiamentos e usando todos os recursos que entravam somente para amenizar juros e renovar financiamentos”, afirmou o advogado da empresa.

Em sua decisão, o jui nomeou um administrador judicial e determinou a dispensa da apresentação de certidões negativas para que a empresa possa exercer suas atividades, assim como a suspensão de todas as ações ou execuções contra a BS Construtora. Também mandou baixar as negativações da empresa no Serasa e nos cartórios de protesto.

O advogado ainda informou que a ERS já iniciou a fase de negociação com os credores para construção do plano de recuperação da empresa.

A Empresa

A BS começou a crescer em 2002, quando passou a fazer peças pré-moldadas para galpões agrícolas e industriais. Dois anos depois, faturava 11,5 milhões de reais.

O salto, porém, ocorreu em 2007, quando fechou dois contratos com a Sadia. No primeiro, entregou um galpão para a criação de suínos. No segundo, a BS assumiu o compromisso de entregar 1.500 casas pré-fabricadas em 12 meses, que seriam usadas por trabalhadores da Sadia em Lucas do Rio Verde (MT). Para realizar o projeto, a empresa desenvolveu um sistema capaz de construir e entregar uma casa completamente finalizada no prazo de 24 horas.

Em vez de empilhar tijolos ou fabricar as diversas peças pré-moldadas (paredes, vigas e vergalhões) para montar em canteiros de obras, as casas da BS são fabricadas inteiras, com espaço para fiação elétrica e encanamento. Podem ser transportadas em cima de caminhões, já pintadas, com porta e janela. O projeto foi um sucesso e a BS faturou 60 milhões de reais em 2008, cinco vezes mais que em 2007.

A BS se destaca pelo alto grau de industrialização do seu processo, que faz com que  seja muito rápido. O método inovador e singular foi reconhecido pelo Instituto Endeavor com o Prêmio Endeavor e EXAME PME de empreendedorismo, em novembro de 2008. 

Com Informações da Assessoria

FONTE : http://www.olhardireto.com.br

ESTELIONATO – BS Construtora fecha as portas na capital e abandona obra de condomínio com 500 casas vendidas –

Mais um golpe de estelionato covarde foi aplicado em alguns moradores de Rondônia. Uma pilantragem aplicada por empresários do ramo da construção civil que chegaram a Porto Velho juntamente com as obras da Usina do Rio Madeira. Um esquema que envolveu a Caixa Econômica Federal e duas conceituadas imobiliárias.

Em maio de 2010, com a proximidade do término das obras de construção da Nova Mutum no distrito de Jacy Paraná, a BS Construtora lançou um empreendimento residencial na capital, com grande alarde publicitário. O condomínio Vila Porto Madeira teria 500 casas, pré- fabricadas e de acordo com portfólio “bons ventos começavam a soprar”.
Porém a empresa supostamente faliu e transformou o projeto da casa própria de pessoas trabalhadoras em pesadelo. Atualmente para chegar onde seria o condomínio dos “sonhos”, o comprador trafega numa estrada de terra com muita lama nas proximidades de uma fábrica de refrigerantes na zona sul da capital.
Vale lembrar que a referida empresa também estava construindo as UPAs – Unidades de Pronto Atendimento que viriam a desafogar o caótico sistema de saúde de Porto Velho.( saiba mais)
Entre os lesados pelos golpistas está o administrador Alessandro Freitas que induzido pela mídia e acreditando nos parceiros do empreendimento que estampava a logomarca da Caixa Econômica e Governo Federal através do projeto Minha Casa, Minha Vida, acabou comprando a casa na Flaezio Lima – Negócios Imobiliários.
Na referida imobiliária, Alessandro assinou um contrato pagando de honorários pela intermediação do negocio o montante de R$ 1.853,64 em três cheques pré-datados. Todos foram devidamente compensados. Para a BS Construtora, até o sumiço da empreteira, Alessandro pagou cinco parcelas em boleto bancários de R$ 199,00 cada.
Com o desaparecimento da BS Construtora de Porto Velho, o administrador iniciou uma “via-crucis” em busca de recuperar seu capital.
Alessandro procurou a Imobiliária Flaezio Lima onde afirmaram  que a empresa apenas intermediou a venda das casas e que possivelmente a Caixa Econômica Federal poderia assumir e que nenhum comprador seria prejudicado. Não é o que parece.

O administrador em ato contínuo foi a CEF, onde foi informado que o comprador deveria ter se cercado de cuidados e buscado a Caixa para saber se o empreendimento era “assegurado” pelo banco. Neste caso especifico da BS Construtora, o condomínio Vila Porto Madeira não atende as determinações do Projeto “Minha Casa, Minha Vida”, que prevê atualmente que a área não possui a infra-estrutura exigida dentro do programa. Ou seja, a CEF “pulou fora” do golpe, deixando os consumidores a “ver navios”.
Sentindo-se lesado e não tendo mais a quem recorrer, Alessandro registrou uma ocorrência policial na delegacia especializada ao consumidor com o nº 0410/2011. Também enviou relatório do caso ao Procon e ouvidoria geral do estado.
Quero ser ressarcido do meu prejuízo, tanto pela imobiliária que é co-responsável e pela BS Construtora. Venderam-me meu sonho da casa própria e hoje vivo um pesadelo. Um empurra para o outro e ninguém é homem para assumir a responsabilidade da transação imobiliária” disse Alessandro.
Durante a apuração da reportagem, o Rondoniaovivo ligou para um corretor da Flaezio Lima, de prenome Fabricio que afirmou que ele mesmo tinha uma casa deste empreendimento para vender o ágio ( 10 mil reais) e que não existe problema, já que a BS está reabrindo as portas e retomando o projeto.

Fonte : http://www.rondoniaovivo.com

Alicerces abalados na construtora BS

A construtora BS cresceu muito em poucos anos, as contas saíram do controle e vieram as dívidas. Cabe a seu fundador, o ex-pedreiro Sidnei dos Santos, reerguê-la

Sidnei Borges dos Santos, dono da BS Construtora

Sidnei Borges dos Santos, dono da BS Construtora: “Perdi a conta de quantas conversas difíceis tive com credores em 2011. Até ameaças de morte eu recebi”

São Paulo – Até recentemente, o catarinense Sidnei Borges dos Santos, de 37 anos, era dono de um negócio em ascensão. Sua empresa, a construtora BS, cresceu 125% entre 2008 e 2010, quando faturou 180 milhões de reais construindo galpões e casas pré-montadas. Santos, um ex-pedreiro que estudou até a 5a série, contratava profissionais egressos de grandes companhias como Ambev, Procter &Gamble e Gerdau.

Os diretores da BS recebiam até oito salários por ano de participação nos lucros. A empresa estava no auge, e Santos sentia-se à vontade para rejeitar propostas de investidores interessados em comprar uma participação na BS.

No começo de 2011, a trajetória de expansão foi interrompida. O pagamento de fornecedores atrasou. Obras pararam. O escritório em Porto Velho, onde a BS construía um condomínio de 500 casas, fechou, deixando descontente gente como o sonoplasta Carlos José Oliveira, de 29 anos. “Dei 5 000 reais de entrada numa casa e fiquei sem nada”, diz ele.

Os problemas fizeram o Ministério Público de Rondônia pedir quebra do sigilo fiscal e bancário dos sócios da BS. Em decisão liminar, o pedido foi acatado.

Em novembro, Santos entrou com um pedido de recuperação judicial na comarca de Sorriso, em Mato Grosso, onde fica a sede da BS, que foi deferido pelo juiz Wanderlei dos Reis. (A recuperação judicial é um instrumento legal que permite a uma empresa renegociar débitos para tentar se reerguer. ).

O total da dívida da BS é estimado em 90 milhões de reais. Entre seus principais credores estão os bancos Itaú, Safra e Credit Suisse, fornecedores, funcionários e clientes que compraram casas.

Em maio de 2011, sem ter como pagar fornecedores de cimento e salários, Santos convocou uma reunião e, às lágrimas, demitiu a maior parte do pessoal. “Perdi a conta de quantas conversas já tive com credores”, diz Santos. “Até ameaças de morte recebi.”

O faturamento da BS em 2011 fechou em 22 milhões de reais — pouco mais de 25% do que a empresa obteve em 2008. Dos 150 funcionários que a empresa mantinha em Brasília, onde a intenção era construir casas populares próximas ao plano piloto, restaram nove.

FONTE : http://exame.abril.com.br

1°FASE REPORTAGEM EXAME: O pedreiro que contratou o executivo

A história de ousadia do profissional que recusou 13 propostas de emprego e um salário 40% maior para trabalhar numa empresa desconhecida

Renata Avediani (ravediani@abril.com.br) , de Porto Velho (RO) /  05/01/2010

Crédito: Raul Junior

O pedreiro Sidnei (à esq.), 34 anos, e o executivo Marcelo, 32: uma decisão de carreira fora do comum

Em maio do ano passado, o engenheiro civil mineiro Marcelo Miranda, de 32 anos, voltava de uma temporada de quase dois anos de estudos na Universidade Stanford, na Califórnia, onde fazia mestrado em administração e negócios, para um ciclo de entrevistas de emprego no Brasil. Como queria regressar ao país após a conclusão do curso, ele vinha mantendo contato com amigos e ex-colegas de trabalho.

Antes mesmo de desembarcar no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, tinha 17 conversas agendadas com executivos de grandes multinacionais. No final de sete dias de reuniões, cafezinhos, almoços e jantares, Marcelo recebeu 13 propostas de emprego para trabalhar em grandes empresas brasileiras e multinacionais com escritório no país. Marcelo, no entanto, acabou optando por trabalhar numa empresa pequena, desconhecida e cuja sede fica em Porto Velho, Rondônia — a construtora BS, fundada pelo catarinense Sidnei Borges dos Santos, de 34 anos, que começou a vida como pedreiro.

O salário atual de Marcelo é 40% mais baixo do que a média das ofertas que ouviu. Os benefícios, bem mais magros — nada de carro, a que teria direito como executivo de uma grande empresa, de bônus polpudos ou pacote de ações por resultados.

Apesar da pouca idade, Marcelo tem um currículo respeitável. Do tipo que faz brilhar os olhos de qualquer profissional de recursos humanos. Ele é formado por uma boa escola, a Universidade Federal de Minas Gerais, e tem vivência no exterior, estudou recentemente nos Estados Unidos e passou quatro anos no Iraque, onde seu pai esteve a trabalho. É fluente em inglês e já ocupou posições de liderança bastante desafiadoras pelas empresas por onde passou — Andrade Gutierrez, MRV e Caenge, obtendo bons resultados em todas elas.

Até agora, sua trajetória de carreira se assemelha à de milhares de jovens profissionais que souberam aproveitar as oportunidades que tiveram. Marcelo não vem de uma família rica, seu pai é um consultor que criou os três filhos sem grandes extravagâncias, nem teve “padrinhos” que lhe abrissem as portas do mercado de trabalho. Tudo que conseguiu foi pelo seu esforço e próprio mérito.

O engenheiro abriu mão do status de executivo na maior vitrine profissional do país para se juntar a um empreendedor visionário, que criou um método de construção inovador, usando moldes, como se fossem formas de bolo, para construir casas pré-fabricadas de 36 a 120 metros quadrados. O menor módulo custa 40 000 reais. O maior sai por 250 000 reais. O sistema de produção se assemelha ao deuma linha de montagem de carros. Com esse sistema, a BS Construtora, fundada em 1994, fabrica atualmente 19 casas por dia. A decisão de Marcelo de se juntar a Sidnei é emblemática, pois quebra alguns paradigmas.

O primeiro deles trata da percepção de que as maiores oportunidades de carreira estão nas grandes corporações. Centenas dos melhores profissionais que saem das universidades brasileiras consideradas de primeira linha pelo ranking do Ministério da Educação se engalfinham na seleçãodos programas de trainee, cujo foco é rejuvenescer a liderança nas empresas. No ano passado, o programa de trainee da AmBev teve 60 000 candidatos, o da Unilever teve 48 000 inscritos e o da Natura, cerca de 20 000. O segundo paradigma que a decisão de Marcelo contradiz é o de que as melhores oportunidades estão nas grandes metrópoles, principalmente nas grandes cidades da região Sudeste. A descentralização de empresas e empregos que está em curso no Brasil tem aberto mais postos de trabalho— para técnicos e executivos — fora do eixo Rio-São Paulo, principalmente no Norte e Nordeste do país.

A opção de Marcelo pela BS também vai de encontro à percepção de que as melhores oportunidades de aprendizado profissional estão nas multinacionais e nas grandes empresas nacionais. As pequenas e médias empresas brasileiras, que são as maiores empregadoras do país, vêm se profissionalizando em uma velocidade cada vez maior. Elas oferecem atualmente ótimas condições de crescimento e desenvolvimento, muitas vezes com maior autonomia operacional e de tomada de decisão do que nas empresas maiores. Por último, Marcelo escolheu trabalhar em uma construtora cujo foco são as classes de baixa e média renda no Brasil, um segmento econômico em expansão, em que a maioria das empresas deseja conquistar clientes.

Ainda assim, Marcelo pode quebrar a cara. Ele, no entanto, parece não se importar com isso. Acredita ter tomado a decisão correta, que faz mais sentido para suas ambições pessoais. Outro ponto que conta muito, na avaliação do engenheiro, é a relação de confiança que tem com Sidnei, o fundador. Essa relação teve início durante a negociação que antecedeu a contratação de Marcelo e vem se consolidando no dia a dia. Todo o processo que levou Marcelo a aceitar a proposta de Sidnei tem muito a ensinar.
A primeira conversa entre os dois se deu em maio do ano passado, num restaurante na zona sul de São Paulo. Sidnei estava acompanhado da esposa, Eliane, sua sócia. Marcelo estava no Brasil para um ciclo de 17 entrevistas, que resultaram em 13 propostas de emprego (sendo uma delas para o cargo de diretor financeiro em uma gigante americana), mas ainda morava na Califórnia, nos Estados Unidos.
O engenheiro estava próximo de concluir um mestrado na Universidade Stanford. Muito ligada a empresas do Vale do Silício e com forte conteúdo de empreendedorismo, a escola é celeiro de profissionais brilhantes e inovadores, entre eles Sergey Brin, Larry Page e Orkut Buyukkokten – os dois primeiros são fundadores do Google e o último, criador da rede social que hoje pertence ao Google. A BS era das últimas conversas na lista e Marcelo quase descartou o encontro. “Quando o Sidnei me telefonou, já não tinha mais agenda”, lembra. O engenheiro topou porque se comoveu com a disposição de Sidnei e Eliane, que se deslocaram de Porto Velho para São Paulo. A conversa durou cinco horas. Marcelo ficou de dar uma resposta e voltou para os Estados Unidos para se encontrar com a mulher e o filho. Cinco dias depois, aceitou a proposta. Em três semanas, ele desembarcouem Porto Velho para ser vice-presidente da BS. E 5 é o número de fábricas que a BS quer construir neste ano .

LINHA DO TEMPO A história de vida e realizações do pedreiro Sidnei e do engenheiro Marcelo 

DE PEDREIRO A EMPRESÁRIO

Filho de agricultores, Sidnei começou a trabalhar no campo com o pai aos 12 anos, em Xaxim, no oeste de Santa Catarina. Abandonou a escola após a quarta série do Ensino Fundamental e pouco tempo depois foi trabalhar em canteiros de obra. Aos 18 anos, o pedreiro recebeu uma proposta para se mudar para Sorriso, no Mato Grosso, e trabalhar na empreiteira de um primo que ele mal conhecia. Sidnei sofreu seu primeiro viés. A empreiteira estava cheia de dívidas.

Logo, o primo abandonou o negócio, deixando projetos inacabados. Sidnei assumiu o comando, terminou as obras pendentes e reconquistou a confiança dos clientes. Novos trabalhos apareceram e aos poucos ele foi se capitalizando. Montou uma pequena empreiteira — o embrião da BS. Sidnei era o visionário e o executor. A esposa, Eliane, formada em ciências contábeis, assumiu as finanças do negócio.

A EMPRESA E O MÉTODO

A BS começou a decolar em 2002, quando Sidnei passou a fazer peças pré-moldadas para galpões agrícolas e industriais. Dois anos depois, faturava 11,5 milhões de reais. O salto, porém, ocorreu em 2007, quando ele fechou dois contratos com a Sadia. No primeiro, entregou um galpão para a criação de suínos.

No segundo, Sidnei assumiu o compromisso de entregar 1 500 casas pré-fabricadas em 12 meses, que seriam usadas por trabalhadores da Sadia em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso. Detalhe: Sidnei fechou o contrato tendo apenas uma vaga ideia de como seriam os moldes de uma casa de concreto. Ele conseguiu desenvolver as casas e a BS faturou 60 milhões de reais em 2008, cinco vezes mais que em 2007. A experiência diz bastante sobre a personalidade de Sidnei. Ele é um empreendedor nato. Dono de uma notável capacidade de enxergar oportunidades, ele costuma aceitar projetos e partir para a execução, muitas vezes antes mesmo de planejar a obra. Por causa desse perfil arrojado, correu riscos, quebrou, se reergueu e, um dia, desenvolveu um sistema construtivo inovador.

Olhando para uma caixa de sapatos, Sidnei teve a ideia de fabricar casas em escala industrial. Em vez de empilhar tijolos ou fabricar as diversas peças (paredes, vigas e vergalhões) pré-moldadas para montar em canteiros de obras, as casas da BS são fabricadas inteiras, com espaço para fiação elétrica e encanamento. Podem ser transportadas em cima de caminhões, já pintadas, com porta e janela. É possível começar e terminar uma casa em 24 horas (o processo convencional de pré-moldagem leva uma semana).

“A BS se destaca pelo alto grau de industrialização do seu processo, que faz com que ele seja muito rápido. Na construção, isso é inovador”, diz Ary Fonseca Júnior, consultor da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP). Sidnei e Eliane ganharam notoriedade quando receberam o prêmio Endeavor e EXAME PME de empreendedorismo, em novembro de 2008, realizado pela ONG de apoio ao empreendedorismo e pela Editora Abril, que publica as revistas VOCÊ S/A e EXAME.

“Sidnei tem uma grande capacidade de entender o que o mercado quer”, diz Bianca Martinelli, gerente de serviços ao empreendedor da Endeavor. A construtora de Sidnei e Eliane cresceu rápido — tem 2 000 funcionários em duas fábricas, uma perto de Sorriso (MT) e outra em Jaci-Paraná, a 100 quilômetros de Porto Velho. Apesar disso, sua gestão é desorganizada. Até o início de 2009, não tinha estruturados processos básicos como gestão financeira, indicadores de resultados e funil de vendas. A Endeavor orientou Sidnei a procurar um executivo profissional, capaz de botar ordem na casa. A situação era urgente: no mesmo ano, a BS assinou contrato com o consórcio Energia Sustentável do Brasil, que está construindo a Usina Hidrelétrica de Jirau, em Rondônia. Sidnei negociou a construção de uma minicidade, com 1 000 casas, escola, hospital, posto policial, centro comercial e toda a infraestrutura necessária.

Tudo no prazo de um ano e meio. Para gerenciar o contrato — o maior da história da BS, no valor de 209 milhões de reais —, Sidnei transferiu a sede e cerca de 70% da estrutura da empresa de Sorriso para Porto Velho no começo de 2009. “Eu sabia que precisaria de ajuda dali pra frente, porque não tenho conhecimentos gerenciais suficientes para isso”, diz Sidnei.

A VOCAÇÃO

Na turma de Marcelo em Stanford, a média de idade dos executivos era de 38 anos. Ele era o mais novo. Todos ocupavam cargos de diretoria, presidência ou eram donos de empresas. Entre os alunos, havia dois perfis bem definidos: os empreendedores e os profissionais que estavam ali para aprender a ajudar os empreendedores — os braços direitos. “Eu me encaixava no segundo grupo”, diz Marcelo, que se recorda de um bate-papo que sua classe teve com Steve Ballmer, presidente mundial da Microsoft.

Steve contou sobre sua parceria com Bill Gates, idealizador e fundador da empresa. Foi uma das histórias que mais marcou a passagemde Marcelo por Stanford. Bill e Steve estudaram juntos na universidade e, enquanto Bill Gates idealizava produtos e vislumbrava oportunidades de negócio, Steve dava apoio, transformando tudoem realidade. Essa maneira de atuar ficou na cabeça de Marcelo. Seu próximo passo seria encontrar um lugar em que pudesse colocar em prática essa competência.

10 MIL unidades por ano é a capacidade atual de produção de casas da BS

30 MIL unidades por ano é a capacidade de produção que a BS estima atingir em dezembro deste ano

A CONTRATAÇÃO

Depois de entrevistar alguns candidatos, o currículo de Marcelo chegou às mãos de Sidnei e Eliane. “No primeiro momento achei que ele era demais para o que precisávamos”, lembra Sidnei. Estranho para quem sempre pensou grande e muitos passos à frente da realidade. Ele explica: “Fiquei com receio de que, por toda sua qualificação, ele chegasse com exigências e fosse uma pessoa fria”, diz o pedreiro.

O casal se preparou para a entrevista com Marcelo, em São Paulo. “Senti que estavam um pouco formais, mas percebi que ganhei a confiança deles quando viram que eu realmente estava interessado em ouvir suas histórias e sobre a situação da empresa”, diz Marcelo. O que fez o executivo olhar com bons olhos para a proposta de Sidnei foi o desafio de estruturar praticamente do zero a gestão de um negócio inovador. “A proposta não me interessou no começo, por causa da localização, mas, quando conheci a história do Sidnei e vi o potencial da empresa, senti que teria ali uma grande oportunidade para minha carreira”, diz. Tomar a decisão não foi tarefa fácil.

“Todo mundo dizia que eu estava louco em trocar todas as outras propostas por esta.” O irmão foi o primeiro a ficar do lado de Marcelo e a favor da BS. Sua esposa ficou em dúvida, num primeiro instante, mas disse que apoiava a decisão do marido. Marcelo disse a Sidnei que aceitava o emprego e teve de fazer uma ginástica para antecipar a conclusão do curso em Stanford e assumir a gestão da BS em três semanas, em junho do ano passado. “Negociei a antecipação de provas, entrega de trabalhos e saí da Califórnia três semanas antes do meu curso terminar”, diz o engenheiro.

NECESSIDADE DE PROFISSIONALIZAR
“A gente vivia correndo de um lado ao outro sem muito foco”, diz Agláucio Viana de Souza, diretor de suprimentos, que antes da chegada de Marcelo era responsável por tudo o que não era referente a recursos humanos e engenharia, como ele mesmo costuma dizer. Desde o primeiro dia, Marcelo buscou estruturar processos e criar mecanismos para dar suporte ao plano de expansão da construtora. Ele foi contratado para ser vice-presidente executivo. No mês passado, virou presidente da empresa.

Como parte da negociação, recebeu carta branca de Sidnei para tocar a empresa. Passou um mês conversando com o pessoal, entendendo como as coisas funcionavam por lá e qual era a função de cada um. Marcelo procurou a Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais, para ajudar na criação de indicadores e na padronização de processos, para que a BS passasse a medir os resultados e a gerenciar o planejamento. Daqui pra frente, a construtora terá o desafi o de reter pessoas. Com isso, a área de recursos humanos tem sido outro alvo por lá. Neste mês, a empresa inicia a implantação de ferramentas como avaliação de desempenho e gestão por competências. No mês passado, Sidnei e Marcelo anunciaram a distribuição de ações da empresa para os diretores.

O objetivo é estender a prática aos demais funcionários a partir deste ano, baseado nos modelos de empresas como AmBev e Odebrecht. O engenheiro procurou manter boa parte dos 1 200 profissionais que já estavam em Porto Velho — menos de 10 pessoas foram demitidas. A reestruturação começou pela defi nição de novas diretorias, que são atualmente seis. Três dos diretores já estavam na BS. Os outros três foram trazidos por Marcelo. Equipes inteiras tiveram — e ainda têm — de ser montadas. No último semestre, 50 profissionais chegaram à BS para ocupar cargos de supervisão, coordenação, gerência e diretoria. O perfil empreendedor é a marca desses gestores. São profissionais de bom currículo, que deixaram para trás grandes empresas. Um deles é o diretor comercial, André Massote, de 30 anos, que veio da fabricante de laticínios Itambé, onde era responsável pela área de exportação da companhia “Quando soube que Marcelo viria, achei loucura, mas quando ele me convidou e contou mais sobre o negócio, resolvi encarar o desafio”, diz André, que entre o primeiro contato com Marcelo sobre o assunto e a chegada a Porto Velho levou 15 dias.

A chegada de André e de outros profissionais trazidos por Marcelo mostrou a capacidade do engenheiro para estabelecer vínculos perenes. Em outras palavras, se não fosse por sua rede de relacionamentos, as novas contratações demorariam muito mais tempo e custariam muito mais caro.

NOVOS PLANOS
Neste mês, a sede da BS está sendo transferida de Rondônia para Brasília. A escolha da capital federal está relacionada à estratégia de expansão da BS, que prevê faturar neste ano 700 milhões de reais. A perspectiva da construtora é contratar pelo menos 4 000 pessoas até o fim de 2010 — no mínimo 200 para cargos administrativos. O que anima Sidnei e Marcelo é a fase de intensa atividade pela qual passam os programas de habitação popular federal e estaduais.

A estratégia da BS é construir pelo menos três fábricas no Brasil no ano que vem. O ponto fraco da empresa é a logística. Como as casas saem prontas da fábrica, transportálas até o destino final de caminhão é complicado. Por isso, as fábricas precisam estar próximas dos clientes. A BS pretende fechar 2010 com cinco fábricas, instalando três unidades novas em Pernambuco, Acre e Distrito Federal. A ideia é aumentar a capacidade de produção de 10 000 casas para 30 000 casas por ano. “Queremos estar entre as cinco maiores construtoras do Brasil em cinco anos”, diz Marcelo. “O lado empreendedor do Marcelo é muito forte, provavelmente foi o grande motivador para ele aceitar o convite da BS”, diz o headhunter Luiz Carlos Cabrera, sócio da PMC Amrop, empresa de executive search de São Paulo.

Em Stanford, uma universidade que dissemina a visão empreendedora, o engenheiro deve ter aperfeiçoado essa competência. Segundo Luiz Carlos, para uma pessoa com senso de autonomia e independência acentuado, escolher uma empresa como a BS faz todo o sentido. “Por ter passado por outras construtoras, ele sabe que autonomia é uma coisa que ele não terá nessas empresas”, diz Luiz Carlos. Segundo o headhunter, as grandes construtoras são “o templo da hierarquia e da experiência acumulada”. Um jovem executivo sabe que numa delas o crescimento é lento.

A história de Marcelo e do encontro com a BS, de Sidnei, mostra que há oportunidades em empresas que muitas vezes não estão no radar nem de jovens profissionais e, muitas vezes, nem dos mais experientes. Nessas pequenas e médias companhias há ótimas oportunidades para crescer, se desenvolver e até inovar. Com a vantagem, como bem observou Luiz Carlos, de que você pode ter mais autonomia e estar bem próximo do centro de decisão.

Estudo de Caso utilizado em aulas prof.Wagner Bueno.

Fonte >Revista Exame

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Sobre Wagner Bueno

Administrador, Consultor e Professor
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3 respostas para O pedreiro que contratou o executivo aos Alicerces abalados na construtora…

  1. Natália Loureiro disse:

    Professor, essa matéria é antiga. Em fevereiro de 2012, data desse post, o Marcelo já havia saído da BS há mais de quatro meses e a empresa estava quebrada. Somente a título de conhecimento, essa história foi um fracasso.

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  2. Maria Alice Gouveia disse:

    Professor, tive contato próximo com a empresa em 09/10/11. A empresa passou por um bom período de crescimento, melhoria da gestão e resultados positivos no final de 2009 e começo de 2010, quando tinham na sua gestão nesse período profissionais de mercado que reforçaram sua gestão e os resultados de fato aconteceram. No começo de 2010 esse grupo de executivos entrou em discordância da estratégia que os acionistas queriam para a empresa dali pra frente, e foram saindo todos, no começo e em meados de 2010 e não em 2012 como citado, como consta inclusive da reportagem da Exame (executivo saiu em jul 2010). A partir desse momento, para implantar a estratégia diferente que os acionistas queriam eles assumiram junto com parentes toda a administração da empresa, sem mais o reforço de profissionais que até então estavam na empresa. Não deu certo. É um produto muito legal, pode ser uma boa solução para a habitação popular. Acredito ainda que apesar da situação difícil podem dar a volta por cima e construir uma bela história empresarial.

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